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No reino dos orgânicos
Feira na Itália mostra a importância dos alimentos orgânicos naquele país
Salada feita com alimentos orgânicos: resgate ao prazer de comer
Por Adriana Lira de Oliveira Arante*
Cheguei em Bolonha, na Itália, sem muita certeza do que iria encontrar. Estava lá para participar da feira internacional de alimentos orgânicos, a Sana, a segunda maior do mundo, em sua 22ª edição, realizada no mês passado.
Em meio a participantes de diversos países, eu fazia parte de uma missão brasileira composta, em sua maioria, por empresários pernambucanos que já tinham projetos em parceria com a Itália e a Confederação Nacional de Indústria (CNI). Goiás estava representado institucionalmente pela Fundação Paulo de Tarso através da sua presidente, Elisabeth Costa, e por mim, que sou curadora da fundação. A primeiro reação ao chegar à feira foi um susto. Como previ naquele momento, seria impossível conhecer tudo. Eram 989 expositores. O tamanho da feira explica-se pela importância da Itália no cenário dos alimentos saudáveis. O país é o maior produtor de orgânicos do mundo. São cerca de 40 mil produtores organizados, em sua maioria, em sistemas de cooperativas e 5 mil transformadores (indústria, distribuidores e importadoras). O sistema fundiário é baseado em pequenas propriedades rurais. No total, 1,2 milhão de hectares cultivados.
As diferenças com o Brasil começam por aí. Ainda que tenhamos uma área agricultável consideravelmente maior, não existe no nosso país uma política nacional de fomento à produção de orgânicos, mesmo que existam programas de incentivos em diferentes órgãos.
Já na Itália, é possível ver governo e iniciativa privada trabalhando juntos. Grande parte das cidades italianas tem legislação que garante a merenda escolar 100% orgânica. Mas não é só isto. O programa trabalha com os principais ativos sociais da questão, a criança e a educação, de maneira inclusiva e interativa. Elas não apenas consomem produtos orgânicos. Participam do plantio em hortas comunitárias, têm contato com o processamento, entendem sua importância. Isto passa a ser natural na vida delas. Com isto o governo investe em saúde preventiva. Para os jovens (de 18 a 40 anos), existem linhas de crédito específicas que garantem financiamento e a permanência deles no campo. Projetos de incentivo são oferecidos para que não haja êxodo para a cidade.
As cooperativas que congregam os produtores são profissionalizadas, modernas, investem em inovação. O produto é apresentado ao mercado em miniporções, ressaltando qualidade e beleza (cai o paradigma de que todo orgânico é necessariamente feio), embalado para chamar a atenção. A certificação, tema polêmico no Brasil, é vista como imprescindível para a garantia de origem do produto. Mas é cara. Muitas vezes encontra-se no mercado produto sabidamente orgânico, mas sem a utilização do selo, por causa do seu ônus.
A barreira do preço existe lá, assim como no Brasil. Nos alimentos in natura a diferenciação é quase inexistente. Porém, nos alimentos processados, a margem gira em torno de 20% a mais, com relação aos produtos convencionais. A Itália passa por uma grande crise econômica. O ritmo de crescimento dos produtos orgânicos diminuiu, mesmo se mantendo representativo, para 10% ao ano (no Brasil o crescimento é de 30% ao ano). Mas a grande diferença entre os dois países é cultural e está no modo de ver o orgânico. Para os produtores italianos, em primeiro lugar vem o prazer pelo modo de vida sustentável. Em seguida, entra a relação mercantilista. Para eles, é natural e prazeroso se alimentar com produto saudável (talvez pelo histórico da cozinha mediterrânea). O homem do campo tem orgulho de produzir sua oliva, seu tomate, seu arroz sem veneno. E ele se profissionalizou a ponto de saber ganhar dinheiro com isto.
A maior parte dos expositores da Sana era composta desses pequenos produtores que faziam questão de apresentar sua produção. Esta apresentação invariavelmente vinha seguida de um convite para conhecer sua propriedade.
Este resgate à origem do alimento vai ao encontro da crença de outras correntes como os vegetarianos, veganos, simpatizantes do slow food, dos consumidores de alimentos funcionais: a busca pelo consumo do produto que faça bem à saúde, que respeite o meio ambiente e que preserve, acima de tudo, o sabor. É o resgate do prazer do alimento.
Em Monte Belo, uma pequena vila a 13 km de Rimini, na costa do Mar Adriático, funciona o restaurante Pacini. Lá, tive um dos experimentos gastronômicos mais prazerosos da minha vida. Com uma vista sensacional, pude degustar um coelho macio, suculento, temperado com uma erva encontrada no mato, regado com um leve e delicioso azeite orgânico. Pude experimentar uma massa que até então desconhecia, a Passatelli. Leve, saborosa.
Tudo simples, caseiro, mas ao mesmo tempo elaborado, saudável e belo. Exatamente como um alimento orgânico deve ser. Saí de lá feliz, com muita vontade de voltar um dia. É este residual, no meu entender, que deve permanecer com relação ao alimento saudável: vontade de passar pela mesma experiência de novo, sabendo que, além de saboroso, faz bem ao corpo e à alma. Assim como a comida das nossas avós...?
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